POETA OU POETISA?

Alguns dados sobre uma questão singular

João Ferreira

Brasília

 

 

1.Estado da questão.

É uma questão de lana caprina, ou seja, uma questão de nulo valor. A questão de quererem levantar a suspeita de que o termo “poetisa”tem  um sentido pejorativo. Realmente a questão não tem valor entre pesquisadores.  Mas,  como há certas pessoas que continuam insistindo que quando se fala de mulheres-poetas, o nome correto para as referir é o de poeta mesmo, e que chamar “poetisa” a uma mulher que faz versos ou escreve poesia  é o mesmo que dizer que ela é escritora menor, não há alternativa senão abalisar a questão em seus termos culturais, dicionarísticos e de uso .

2. Debate.

Para essas pessoas quero mostrar que há toda uma tradição clássica tanto no mundo greco-latino quanto no mundo ocidental que contraria essa idéia de uso pejorativo.

Para entendermos melhor isto, ajudará se traçarmos um breve perfil da história do uso do termo” poetisa” . Rapidamente entenderemos o que cultural e criticamente significam os conteúdos de “poetisa” quando nos referirmos à mulher que produz versos ou  à autora de poesia.

Entre os gregos, a figura do poeta era representada pela palavra “poietès” (autor, produtor, criador) e no latim a palavra “poeta”, nome atribuído ao escritor que compunha poesia. Sendo na cultura grega “poietès” aquele que compunha versos, o termo valia tanto para homem como  para mulher. A essência do “poeta” era “fazer”, “produzir” e compor versos. Os latinos tinham já ao lado da palavra Poeta, inspirada no grego, a palavra “Poetis, poetidis”, com o significado de poetisa.No Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de José Pedro Machado e no  Dicionário Etimológico Nova Fronteira de Antonio Geraldo da Cunha, o termo Poetisa é apresentado como tendo seu  primeiro uso registrado em língua portuguesa em 1813. Por sua vez,  Caldas Aulete em seu Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa, assim como António de Morais Silva em Grande Dicionário da Língua Portuguesa, como também  Michaelis em seu Moderno Dicionário da Língua Portuguesa, e Aurélio em Novo Dicionário da Língua Portuguesa,  registram o nome de poetisa e dão a essa palavra o significado unânime de “mulher que faz poesias”. Aurélio dá-nos  um detalhe gramatical de morfologia  extremamente útil para simplificar a compreensão do termo: “poetisa, feminino de poeta”.,

Por sua vez,  Francisco Silveira Bueno no Grande Dicionário Etimológico e prosódico de Língua Portuguesa não faz senão confirmar toda a tradição anterior:”Poetisa –mulher que faz poesias”. É esta uma tradição de significação e história semântica  acessível e clara.  Da mesma forma que os latinos  que possuíam já o termo feminino  poetis, idis(=poetisa), as línguas neo-latinas e anglo-saxônicas não deixaram por menos. Os  Franceses registram a palavra Poète(poeta) para designar o poeta-homem e poétisse(termo que ascende ao século XV) e poétesse (poetisa já em sentido pejorativo) para designar o poeta-mulher. Na língua italiana, há a palavra poeta(poeta) e poetisa(poetisa), para indicar respectivamente poeta-homem e poeta-mulher. Em espanhol, além da palavra poeta (poeta masculino), é empregada paralelamente a palavra Poetisa no sentido de “mulher que faz versos ou tem numen poético). A Enciclopédia Universal Ilustrada Europeo-americana, publicada pela Espasa-Calpe, em Madrid, apresenta o verbete Poetisa, mostrando as várias línguas em que esse termo é usado e define poetisa como: “Mulher que compõe obras poéticas e é dotada das faculdades necessárias para compô-las” e como “mulher que faz versos”

Em língua inglesa, há os termos de poet (poeta) e poetess (poetisa). Por sua vez, no alemão, estão claros os termos Dichter (poeta-homem) e Dichterin (poeta-mulher).

Como o leitor pode ver, ao acompanhar esta informação, sabiamente, as línguas ocidentais já ficaram esses conceitos há muito tempo.

E há um detalhe importante. Fixaram os conceitos do exercício autêntico de compor versos, para o que criaram os nomes reverentes de poeta e poetisa. E paralelamente criaram toda uma terminologia para detonar os maus versejadores.

Este aspecto torna-se mais importante em nosso meio uma vez que existem puristas radicais que ainda pensam que o termo  “poetisa” tem um sentido pejorativo. Uma pálida razão, em tempos remotos,  pode ter dado a eles a base para pensarem assim. Pode essa corrente ter sido gerada pelo reflexo do significado do termo “poétesse” em França, termo realmente pejorativo. Mas o bom intelectual não fica a meio do caminho. Segue em frente. E se seguir em frente, entre os próprios franceses, além de “poète” encontra o termo “poétisse”, que significa a poeta-mulher que “compõe versos”, tal como acontece em todas as línguas neo-latinas e anglo-saxônicas que vimos acima.

Para responder à objeção de que poetisa tem um sentido pejorativo, interessa dizer a essas pessoas preocupadas com o uso indevido do termo que há maneiras  de qualificar versos de baixa qualidade ou as mulheres más-versejadoras . Há termos apropriados que a história já consagrou.

A primeira observação a ter em conta é a de que a história evolutiva da língua ganha no decurso do tempo sua própria sabedoria e equilibrio semântico. A sabedoria da história  nos mostra como todas as literaturas criaram paralelamente termos apropriados para nomearem as figuras que desvirtuam os conceitos puros da poesia. Por outras palavras, a história nos mostra como há termos adequados para nos referirmos aos maus poetas. Esses termos são  nomes pejorativos. Se o leitor prestar atenção, entre eles, não está o nome de poetisa. Ao contrário,  todas essas línguas que referi, registram o nome de “poetisa” como um nome normal, no sentido de “mulher que compõe poesias”, sem nenhuma reticência....

Vejamos alguns exemplos. Os italianos nos dizem como rejeitar  um mau versejador que tenta se servir do nome de poeta para subscrever seus versos ruins. Então os italianos criaram os nomes de poetastro que é o “poeta péssimo”, e  poetuccio e poetuzzo, de que se servem para pejorativamente indicarem os maus poetas. Traduzindo poetastro colocaríamos o termo no núcleo significativo de  “mau poeta” e “poetinha” que é também o nível semântico de poetuccio e poetuzzo.  Os franceses, por sua vez, têm o vocábulo poetereau, que é  o poeta de água doce, o poetaço, o mau poeta. Em língua portuguesa, temos igualmente dicionarizados vários termos para indicarmos os maus poetas. Entre eles,  poetastro, poetaço e poetinha e até pseudo-poeta...

É bem natural que no uso quotidiano, leitores e versejadores se encontrem com uma variedade enorme de poetas que expõem seus versos. Muitas vezes são poetas onde a qualidade é inferior ou nula. Se quisermos qualificá-los, podemos lançar mão do termos clássico  de poetastro e,  com a criatividade que os falantes sempre têm,podem ser  usados termos como poetinha, na linha do poetuccio italiano, termos que serão inteiramente justos para os versejadores sem qualidade... De destacar que  a totalidade de  nossos dicionários e da tradição jamais lançou a suspeita pejorativa contra o termo “poetisa”.

A título de conclusão, há legitimidade em empregar com naturalidade o termo poetisa para nos referirmos às ativas mulheres que gostam de compor poesia. Sabemos a vitalidade que a poesia feminina tem hoje em nosso país. Em nome dessa vitalidade qualidade poética, podemos falar  de nossas poetisas. Das que constroem um competente e lindo mundo poético. E quando quisermos falar das decadentes, ou das incapazes ou desvirtuadoras do verso, sem talento ou inspiração, temos também linguagem adequada: podemos falar de “poetinhas” em sentido pejorativo, da mesma maneira que falamos do poetastro quando nos referirmos aos homens.

Se tivesse de dar uma resposta a um aluno que me perguntasse sobre a liceidade do uso do termo  poetisa, eu diria sem pestanejar: “está limpo”. E completaria: o termo é  apenas o feminino de poeta, formado de maneira similar ao de  pitonisa, sacerdotisa, papisa e diaconisa, que são os femininos de piton,sacerdote, papa e diácono.

Se porém,  alguém nas esquinas tentar meter confusão, teremos a paciência de lhe repetir o que acabamos de discutir neste texto.. Falaremos para essas pessoas que  na realidade as coisas são bem claras na análise cultural cujos tópicos apresentamos aqui. Para todos os efeitos,  poetisa continua sendo a mulher que compõe versos, a poeta-mulher.

Agustina Bessa Luís  classifica Florbela Espanca  de grande poetisa na monografia que escreveu sobre ela.O termo é empregado e reconhecido também pelo grande poeta José Régio, biógrafo e crítico de Florbela. E Cecília Meirelles é dita nossa poetisa no Brasil. Nandinha Guimarães, numa série de estudos e de análises da poética contemporânea feminina publicados em Usina de Letras, fala, entre outras, de Gilka Machado  como poetisa. É um termo em uso, portanto. Usemo-lo sem receio.

João Ferreira

16 de fevereiro de 2002

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